Two men playing chess outdoors in a dusty neighborhood, surrounded by a group of children watching intently, with a vehicle in the background and laundry hanging between houses.

Na década de 1990, se fechasses os olhos, em Luanda, o som do xadrez nos musseques não era o do silêncio sepulcral dos torneios de elite. Era o som das peças de madeira (ou plástico gasto) batendo em mesas de improviso, misturado ao ritmo do semba, do kuduro e ao barulho dos candongueiros.

Mas hoje, ao caminharmos por estas mesmas ruas que deram à luz, mestres internacionais como o Adérito Pedro, surge a pergunta inevitável: Onde se escondeu o Xadrez da periferia?

A Era de Ouro do Tabuleiro de Rua

Houve um tempo em que o xadrez era a “ferramenta de resistência” nos bairros. Em bairros como o Sambizanga, Cazenga, Kinaxixi, Cruzeiro, o tabuleiro era o ponto de encontro inter-geracional. Não precisávamos de relógios digitais de última geração; o tempo era medido pela paciência dos espectadores que rodeavam a mesa, lançando palpites que muitas vezes irritavam os mestres do bairro.

O xadrez nos musseques tinha uma função clara:

  • Integração Social: Unia o velho “kota” ao jovem aspirante.
  • Resiliência Mental: Ensinava a estratégia necessária para sobreviver a um cotidiano muitas vezes duro.
  • Identidade: Jogar bem xadrez no musseque era uma marca de respeito, um título de nobreza conquistado no asfalto ou na terra batida.

O que mudou?

Há uma combinação de factores que parece ter “empurrado” o xadrez para dentro de quatro paredes — ou pior, para o esquecimento, alguns dos quais, passo a citar:

  1. A Digitalização do Lazer: O jovem que antes buscava o tabuleiro hoje encontra o Battle Royale (e outros jogos mais) no telemóvel. O xadrez migrou para as apps, tornando-se uma experiência solitária em vez de comunitária.
  2. A Institucionalização: O xadrez tornou-se mais formal. Embora as federações façam um trabalho importante, o “xadrez de rua” — aquele sem regras de etiqueta rígidas — perdeu o fólego.
  3. O Futebol (“o desporto das multidões”), tomou a dianteira.

O xadrez não morreu nos musseques; ele apenas ficou invisível. Ele sobrevive em pequenos núcleos, em projectos sociais heróicos que lutam contra a falta de patrocínio e na teimosia de alguns veteranos que ainda montam o tabuleiro no quintal.

O xadrez do musseque está à espera de um reencontro. Precisa-se de incentivo, de tabuleiros acessíveis e, acima de tudo, do reconhecimento de que o futuro primeiro Grande Mestre angolano poderá estar hoje a calcular variantes no meio de um bairro poeirento.

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