faltam exactamente nove dias para o arranque do 17.º Campeonato Africano de Jovens de Xadrez, em Entebbe, no Uganda, e a comitiva de Angola corre o sério risco de ficar em terra.

De que serve o talento, o treino árduo e o mérito desportivo se a burocracia e a aparente inércia administrativa destroem o futuro dos nossos atletas antes mesmo de o torneio começar?

Os Factos: O Que Sabemos Até ao Momento

A análise objetiva da situação actual é alarmante e aponta para uma falha logística gritante por parte das entidades reguladoras. Atentemos aos dados:

  • Inscrições Fantasma: Uma consulta rápida e fria à plataforma oficial chess-results.com revela o pior cenário — até à data, não há um único atleta angolano oficialmente inscrito na competição.
  • Apagão de Comunicação: Treinadores diretamente ligados aos 14 jovens seleccionados confirmam que a Federação Angolana de Xadrez (FAX) ainda não solicitou a documentação dos atletas. Não há confirmação de vôos, não há itinerários, não há diretrizes. Há apenas um silêncio institucional ensurdecedor.
  • Iniciativa Privada ao Resgate: A gravidade do cenário é tal que, perante a paralisia federativa, houve treinadores a tratar da documentação dos seus pupilos por conta própria e a expensas pessoais. Uma clara demonstração de que o privado está a tentar cobrir as falhas graves do setor público/institucional.

O Verdadeiro Custo da Incompetência

Não sejamos ingénuos. O que está aqui em causa não é apenas a ausência num torneio de prestígio ou a perda de potenciais medalhas. Estamos a falar do investimento de famílias inteiras, que sacrificaram recursos e tempo a acreditar no xadrez como uma via de desenvolvimento para os seus filhos. Estamos a falar de treinadores que aplicaram método, disciplina e dedicação ao longo de meses.

Ao normalizar a desorganização, o xadrez angolano destrói a própria base que o sustenta: a confiança dos jovens e o respeito internacional. Já vimos este filme antes, e o resultado é sempre o mesmo: o isolamento desportivo.

O Relógio Não Pára

Tecnicamente, ainda há tempo? Sim, a matemática permite. Mas o pragmatismo logístico diz-nos o contrário. Vistos internacionais, passagens aéreas de última hora (com custos inflacionados que lesam o erário público ou os patrocinadores), acreditações e reservas de hotel exigem prazos rigorosos que estão a esgotar-se a cada hora que passa.

A comunidade enxadristica tem o direito absoluto à transparência. É urgente e imperativo que a Federação Angolana de Xadrez e as estruturas responsáveis quebrem o silêncio e apresentem justificações públicas. Os clubes com atletas visados devem, de igual modo, reportar o estado real da situação.

Entebbe começa a 14 de maio. Os rapazes e raparigas de Angola conquistaram o direito de estar no tabuleiro africano. Deixá-los em terra por mera incompetência de secretaria não é apenas um erro de gestão — é uma injustiça inaceitável.

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